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Um Mar de Recordações

Um Mar de Recordações

Há sempre uma luz…

Passaram-se seis meses desde que tinha recebido a carta a confirmar o divórcio. Desde aí tinha ficado descuidado, não se preocupava consigo. Esquecia-se de cortar a barba não tinha qualquer cuidado em arranjar-se e passava os dias a embebedar-se. Perdera o emprego. Vivia numa constante solidão, na verdade tinha-se afastado de todas as pessoas que conhecia. A vida tinha deixado de fazer sentido, vivia nas sombras, caminhando cegamente para uma espiral de destruição.

Naquela tarde, estava um calor abrasador, mas aquele homem arrastava-se penosamente nas ruas. Tinha tido uma nova discussão no bar local. Estava cansado, as forças estavam a abandona-lo. Sentiu uma forte tontura e perdeu o equilíbrio. Colapsou quase instantaneamente caindo estrondosamente no chão frio. Não se importou, fechou os olhos e ficou ali deitado no meio da estrada durante vários minutos. Ouvia passos perto que ignoravam o seu estado, mas isso não o importava.

Por momentos quase que apreciou aquele momento de solidão total. Contudo, de repente surgiram passos apressados que se aproximavam cada vez mais. Iam na sua direcção, percebeu isso. No instante seguinte, sentiu uma mão esforçar-se por levantá-lo. Esforçou-se por abrir os olhos, mesmo com o sol de frente. No meio de toda aquela claridade conseguiu ver a face de uma jovem. Aquela luz dava-lhe uma aura divinal. Mesmo nos lugares mais sombrios, há sempre uma luz, pensou. Só teve tempo para sorrir e desmaiar. Para ele, o seu milagre tinha acontecido…

[Ficção]

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A dor da separação

Passados três meses, tinha recebido a carta que lhe partiu o coração. Em cima da secretária, estava o pedido de divorcio. Um casamento de uma década desfeito através de umas simples e frias palavras. Não recebera aquela notícia com surpresa, já a esperava há algum tempo, mas perceber que não havia saída daquele pesadelo era uma realidade dura de suportar. Aceitar aquela separação era reconhecer que os últimos dez anos da sua vida não passaram de um fracasso. Desde cedo que tinha tentado agradar aquela mulher de todas as formas possíveis, dando-lhe todo o amor que tinha e concretizando todos os seus caprichos. Tinha vivido para aquele amor. Dedicou-se intensamente aquela relação, mas o único agradecimento que tinha recebido era vários gestos de ingratidão culminados com aquela carta. “O que tinha falhado?”, não deixou de pensar enquanto lia pela centésima vez aquele papel. Acreditava piamente naquele amor e aquele acto tinha sido um golpe demasiado duro para ultrapassar. Não podia acreditar o quão iludido tinha estado durante tanto tempo. Não conseguiu conter que uma lágrima caísse na sua pele já com algumas rugas, estava demasiado fraco para conseguir manter-se afastado daquela tristeza e desilusão. Agora, para que tudo aquilo ficasse selado, apenas precisavam de uma assinatura dele, um pedido para assumir que todos os seus sonhos tinham sido abatidos com aquela separação. Levantou-se da cadeira e foi encher um copo de whisky. Deu um longo trago repentinamente. “Que assim seja!”, afirmou numa voz intensa de desespero, enquanto começava a rubricar aquele papel. O seu casamento tinha terminado oficialmente naquele momento, tal como a sua vontade de sonhar…

[Ficção] 

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