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Um Mar de Recordações

Num passado de indefinições, um presente intermitente em que um futuro ambicioso se avizinha

Um Mar de Recordações

Enfrentar os medos!

"Não consigo! Tenho medo...", admitiu-lhe aquela bonita jovem que não devia ter mais de 17 anos. Expressou-se em voz baixa, sem conseguir olhar-lhe nos olhos. Era evidente o desconforto que sentia ao admitir aquela limitação.

O rapaz que devia ter mais um ano que ela sorriu de forma afectiva. De certa forma, reviu-se um pouco naquele momento. Ele próprio, no passado, já tinha perdido tanta coisa porque não teve coragem de arriscar. De enfrentar os seus medos, no entanto agora era alguém pronto para qualquer desafio.

Soube lutar contra as adversidades e afastar os seus fantasmas.
Quase instantaneamente , deu-lhe a mão de forma carinhosa. "A vida é feita de medos, de inseguranças. Não te deixes dominar por isso, pois só assim podes ir mais longe. Levanta a cabeça e vai em frente, não te deixes limitar. Eu estou aqui, vai correr tudo bem!", disse-lhe com sinceridade. A rapariga respondeu com um sorriso tremulo. Abanou a cabeça de forma mais convincente e começou a escalar a montanha íngreme ."

Texto originalmente publicado na rubrica Conta-me Histórias

 

 
 

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Quando se tem pouco tempo...

"Não tenho tempo", murmurou ela, naquela voz solene tão característica.

Não consegui deixar de sorrir com aquela afirmação. "Falta de tempo", enfim o grande problema da humanidade. Nunca há tempo para nada, passamos a vida a correr de um lado para o outro num stress constante. Deixamos de aproveitar o momento, deixámos de saborear as pequenas vitórias. Minutos depois, já estamos em nova correria para atingir uma nova meta qualquer. Não sabemos descansar, vivemos nesse frenesim diário com a vida ocupada com tudo e mais alguma coisa. A vida é assim mesmo...

Temos aquele irreal de conseguir conquistar todos os nossos objectivos num dia. No fundo, não passamos de pessoas permanente insatisfeitas, lutando com a dedicação máxima pelos nossos sonhos. Ainda assim, por muito esforço e dedicação é impossível vencer tudo num dia. É por isso que passamos a vida a priorizar tudo, a fazer escolhas constantes. Portanto temos de escolher o rumo certo, é é naquilo que gostamos que devemos sempre gastar o nosso tempo...

 

 
 

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Solidão de artista

Estava a tornar-se a cada dia que passava um musico mais conhecido e reputado. Cantava apaixonadamente as letras mais bonitas de amor.  Fazia-o com tal intensidade que pareciam ser as suas histórias que contava. Levava a crer que vivia um amor intenso e genuíno quando no fundo não era verdade. As poucas relações que tivera revelavam-se um autentico fiasco, o amor não lhe tinha dado mais para além de desilusão e frustração.

Era bem parecido, possuía um charme natural e traços de um requinte distinto que deliciava as suas fãs completamente encantadas. Recebia todos os dias cartas de amor, mas sabia que aquele não era um sentimento verdadeiro. As pessoas apenas idealizavam aquilo que desejavam, não o conheciam realmente. Pensavam que era perfeito, mas ele sabia que era repleto de defeitos e imperfeições. Sabia que isso era difícil de gerir, por isso nunca levava a sério aquelas declarações. Permanecia só com a sua voz melodiosa cantando as histórias de amor dos outros…

                                               [Ficção]

 

 

 
 

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À procura do seu paraíso

Naquele dia tinha-se desafiado a escalar uma montanha que tinha fama na região de ter uma vista magnífica. Era aventureiro, não conseguia dizer não a uma ideia que punha na cabeça. Era um jovem atlético com um corpo preparado para qualquer esforço físico. Não teve grandes problemas até chegar ao cume da montanha, mesmo que tivesse acabado completamente exausto e ofegante. Deitou-se em cima da relva e descansou por longos minutos. O dia estava ventoso, mas agradável. Perfeito para aquele tipo de desafios e maravilhoso para descansar um pouco. Não restou muito tempo até adormecer.

Só acordou vários minutos depois, espreguiçou-se demoradamente. Aquele era mesmo um local magnífico, mas quando olhou pela primeira vez para o horizonte não conseguiu suster um longo suspiro de frustração. Tinha escalado cerca de duas horas esperando encontrar uma visão de cortar a respiração, mas o melhor que tinha feito é ter aproveitado aquele local para uma sesta. Não conseguia deixar de se sentir desapontado consigo próprio.

Aquela paisagem, por vezes, era comparada a uma visão do paraíso, mas não era aquilo que precisava naquele momento. Aquele não era o seu local não passava de um sítio desconhecido e belo, aquela visão apenas simbolizava isso. Apenas via uma vista extremamente bonita, mas que pecava por faltar a companhia certa para tornar esse local num verdadeiro paraíso. Na sua percepção, se alguém diz que existe um paraíso, não o afirma por ser belo, mas por ser especial. Basta a companhia certa, algumas palavras, um sentimento, para tornarem qualquer banalidade num paraíso. Por enquanto, teria que continuar a procurar esse momento…

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Um dia mágico!

A manhã despertou solarenga, um calor tímido aquecia num rotineiro dia de Inverno. A temperatura tinha estado particularmente baixa nos últimos tempos, no entanto aquele jovem tinha acordado para um dia de Dezembro especial. Vestido de formal, avançava num passo apressado para o trabalho. Olhou rapidamente para o relógio, estava a ficar atrasado. Pensava que ia para mais um dia monótono e rotineiro, não podia estar mais enganado. Quando já tinha chegado à rua da empresa, o telemóvel começou a vibrar no seu bolso. "Nasceu ontem à noite", ouviu do outro lado na linha num tom de voz embriagada. Nasceu um sorriso enorme naquele jovem que começava a ficar atrasado. O tempo parou por momentos. Era aquilo que precisava de ouvir para fazer daquele dia inesquecível. Rapidamente, combinou encontrar-se naquela tarde sem conter o entusiasmo por aquela boa nova. A partir daí, o dia foi passado a contar as horas que teimavam em avançar tão lentamente. O coração batia de forma acelerada quando a hora de saída finalmente chegou. Começou a correr, apenas descansou quando passou por aqueles corredores despidos do hospital. Não precisou de muito tempo para chegar à ala de maternidade. "O padrinho chegou", ouviu mal entrou na pequena sala. 

 
 

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Toque do destino

O tempo arrefece rapidamente. O dia está estupidamente cinzento, a chuva aproxima-se. É melhor despachar-me, penso instantaneamente. Não posso chegar atrasado. Não podemos fugir do destino. A ideia provoca-me um sorriso irónico, seguida de um longo suspiro. Não há mesmo forma de evitá-lo... Nunca acreditei nestas tolices, mas agora tenho que me render às evidências. Curioso, como as coisas mudam por um mero acontecimento.

No início do dia, percorria caminhos ríspidos repletos de pessoas ruidosas e apressadas. Fazia-o despreocupadamente. Ninguém dava conta da minha presença, não passava de um fantasma nas ruas. Pensava que tudo isso iria acabar. Esse pensamento era a única razão que me fazia continuar a mover. A morte. Dolorosa, intensa e inevitável. Reconheço que pensava que ia acabar com tudo de uma vez por todas, sem qualquer tipo de dramatismo. Um simples tiro e tudo isto acabava.

A arma estava no bolso do casaco pronta para ser disparada. Dirigia-me a um campo próximo da minha casa. Nunca fui de grandes planos. Não estava à procura de uma morte majestosa , não! Queria apenas algo rápido e derradeiro. Um final seco, numa vida desapontante. A verdade é que deixei-me consumir pelo meu próprio ego e perdi tudo o que tinha. Fiquei sem trabalho, dinheiro e família e acabei sozinho nas terríveis malhas da solidão...

Admito que nestes momentos sombrios pensei que nada mais havia para lutar. Perdi o medo das consequências, talvez tenha sido presunçoso da minha parte… Mas nada me prendia aqui, resta-me acabar com tudo. Quando cheguei finalmente ao local, apontei a arma à minha boca. Queria terminar com tudo o mais rápido possível. A pistola estava brilhante, novinha em folha. Tinha sido comprada única e exclusivamente para aquele objectivo. Fechei os olhos.

Passaram várias fases da minha vida pela minha cabeça, enquanto estive com os olhos fechados. Como se tivesse a ver um álbum de fotografias que esperava pela última imagem – a minha morte. Comecei a puxar o gatilho da arma. Enfim, a liberdade. Hoje. AGORA, gritei. Triiiim . O som do telemóvel fez-me perder a força da mão e larguei a arma desengonçadamente. A pistola fica esquecida no meio da relva esverdeada. Tinha recebido uma mensagem, um toque do destino. Comecei a lê-la e deixei-me cair de joelhos com lágrimas a correrem-me descontroladamente pela face. “Tenho saudades tuas, pai. Onde estás?”, podia ler-se na mensagem.

[Ficção]

 

 
 

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A perseguição do homem sem face

A hora era tardia e ninguém estava na ruas, Diana, de 20 anos, tinha saído do escritório onde estava a ter a sua primeira experiência de trabalho e logo numa cidade que pouco conhecia. De longos cabelos negros e de olhos de avelã, a jovem espalhava uma beleza invulgar. Estava nervosa, pois desde que tinha saído do trabalho tinha sentido que estava a ser seguida. Nunca tinha conseguido ver a cara dessa pessoa que escondia-se sucessivamente nas sombras. Num momento de desespero começou a andar mais depressa e o perseguidor fez o mesmo.

O medo começou a crescer pelo seu corpo. “Não vais fugir Diana”, gritou entre as sombras a estranha figura. Após ouvir aquela ameaça, sentiu pânico. Começou a correr e a gritar por socorro, mas ninguém a veio acudir. “Como é que ele sabe o meu nome”, questionou-se, ao mesmo tempo que corria o máximo que podia. Tentou virar pelo máximo de ruas possíveis. Esquerda. Direita. Esquerda. Quando deu conta já se encontrava num local da cidade que nunca tinha visitado. Os passos continuavam próximos e mais perto do que aquilo que queria escutou um riso doentio.

A roupa que tinha era demasiado justa e dificultava os movimentos, fazendo com que se cansasse ainda mais. Ao ver uma floresta a aproximar-se decidiu entrar nela para encontrar um local para se esconder. Não podia continuar naquele ritmo. Dessa forma, acelerou o passo para entrar no trilho. “Diana, não te podes esconder. Eu vou encontrar-te, não me consegues escapar”, foram as aterradoras palavras que ouviu. O nervosismo acabou por fazê-la tropeçar e cair. As calças ficaram com um enorme rasgão no joelho. As suas forças estavam a terminar, apercebeu-se com frustração. 

Já estava a correr há vários minutos e mesmo assim nunca tinha conseguido estar fora de perigo. O medo era cada vez mais e tinha a certeza que não podia continuar a correr para sempre. Levantou-se e acabou por esconder-se entre os arbustos. As mãos tremiam e começou a rezar mentalmente para que não fosse encontrada. Ouviu os passos a aproximar-se. Sabia que muito em breve ele estaria ali, isso era inevitável. Entretanto, começou a sentir um cheiro intenso que lhe dava vómitos. “Era ele! Há quanto tempo é que este animal não se lava?”, pensou desesperada. Não era só difícil escapar-lhe, também era impossível suportar estar perto dele. No entanto, para sua satisfação aquela figura aterradora estava a afastar-se. Não conseguia ouvir nada e crescia esperança daquele pesadelo ter terminado.

Aquele cheiro horrível parecia ter ficado infiltrado nas suas narinas, mas aquele silêncio deu-lhe coragem para se mexer um pouco. O silêncio continuava. Suspirou. Começou a levantar-se e viu o estado do joelho. Um arranhão. Virou-se para sair dali e… gritou! Ali estava ele, mesmo à sua frente. Olhou para a sua cara e a visão deixou-a horrorizada. Não tinha face, tudo nele era branco. Não teve tempo para reagir, apenas ouviu ‘brogh’ e sentiu uma enorme dor. Tinha uma faca espetada na barriga. Tentou gritar novamente, mas saiu uma jorrada de sangue da sua boca. Fechou os olhos e sentiu o seu corpo cair.

Abriu os olhos e o seu corpo estava totalmente soado e respirava ofegante. Estava deitada na sua cama com o coração a mil à hora. Não podia acreditar! “Um pesadelo, um estúpido pesadelo”, pensou. Levantou-se mas sentiu uma dor enorme na barriga. Levantou a camisa e viu uma enorme ferida…     

[Ficção]

 

 
 

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