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Um Mar de Recordações

Num passado de indefinições, um presente intermitente em que um futuro ambicioso se avizinha

Um Mar de Recordações

Recordação...

Hoje não passas de uma memória, de uma simples e bela recordação. Hoje és o passado que já foi o meu futuro. Consigo ver-te nesta espiral de recordações, neste longo mar de recordações. Sempre foste a pessoa que mais amei que mais me tocou, mas hoje choro por ti! Chove e tu não podes fazer nada. Sempre foste tão forte e agora nem consegues abrigar-te da chuva! Nunca pensei ver-te assim, caiem-me lágrimas de olhar e não poder ver-te, a partir de agora és apenas e só uma pedra. Uma pedra com escrituras… Merecias mais amor, merecias muito mais… Porquê é que teve que ser assim? Fomos separados sem desejá-lo, numa volúpia arrasadora e letal. Mas hoje o dia ainda é nosso, por hoje seremos mais uma vez só nós dois, amanhã apenas restarei eu, sozinho, perdido num mundo que já não conheço e que dizia a sorrir que era nosso.

[Ficção]

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Aversão à imprevisibilidade

Admito que gosto de saber o que vem a seguir, nunca lidei bem com a imprevisibilidade. Na verdade, é algo que não consigo suportar, até porque nunca me importei em ter uma vida chata, previsível e estrategicamente organizada… Isso acontece porque sempre gostei de controlar tudo o que se passava à minha volta. Talvez seja somente eu a ficar velho, mas eu anseio pela previsibilidade. No entanto, a minha vida mantém-se imprevisível , deve ser por isso que nunca lidei bem com ela. Todos acabamos por querer sossego e paz, mas o mundo vive numa constante loucura diária que não nos deixa chegar a esse desejo. Nessas alturas sinto uma uma instabilidade enorme. Qual o passo devo dar? Não sei como reagir, é algo intolerável que me causa uma ansiedade enorme. Não há maior prisão do que a imprevisibilidade. Sim, sinto uma aversão total a ela! Ainda assim não consigo deixar de viver nela…

 

[Ficção]

 
 

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Um abraço mágico

Dirige-se para sua casa cabisbaixo, o dia tinha-lhe corrido francamente mal. Voltara a falhar, não queria acreditar naquilo que lhe estava a acontecer. A entrevista de trabalho que tinha feito não tinha corrido como pretendia, sabia que não iria ser chamado. Completava quarenta anos daqui a umas semanas e as oportunidades eram cada vez menos, não lhe era permitido continuar a desperdiçar oportunidades. Já não tinha as ilusões da juventude, sabia que aquelas dificuldades eram problemáticas. Estava destroçado por não conseguir ajudar em casa, passava os dias frustrado numa espiral de derrota sem conseguir dar um passo em frente. Ia caminhando sem erguer a cabeça, estava com pena de si próprio. Mesmo tendo uma carreira de prestigio e ser um trabalhador competente e cumpridor, a crise fez com que vivesse um autêntico pesadelo. A sua confiança nunca mais foi a mesma, simplesmente despareceu. Sentia-se perdido, sem rumo. Entrou em casa completamente derrotado, a sua mulher veio rapidamente ter com ele ansiosa por novidades. Não precisou de dizer absolutamente nada, ela abraçou-o instintivamente. Aquele gesto fez com que tudo ficasse melhor. Ela era a sua rocha, possuía a capacidade de tornar todos os seus dias melhores, de afasta-lo daquele abismo negro. Aquela era a força do verdadeiro amor!

[Ficção]

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A resposta que não desejava

Esperava há meses por aquele mail, tentei não ter quaisquer expectativas. Não me queria desiludir, mas não consegui conter a esperança de sonhar. Tinha trabalhado imenso para vencer, passei várias horas empenhado a escrever. Era impossível não imaginar um momento de glória. Ontem, quando abri a caixa de correio e vi que ali estava a resposta, sustive a respiração por uns momentos. O meu coração acelerou. Estava à distância de um clique de saber o resultado, de poder ter um empurrão no futuro. Reuni toda a coragem e carreguei para ler, não demorou muito tempo para entender que tinha falhado. Não consegui esconder a desilusão. Mais um não. Por momentos, admito que senti o desespero apoderar-se de mim, quis realmente desistir. Não queria continuar. Acreditei que não ia conseguir chegar ao meu objectivo, que me faltava algo. Enquanto isso relia o mail várias vezes, não querendo acreditar que aquele voltava a não ser o meu dia. Não podia ficar mais revoltado com essa situação, quase que instantemente desejei dar a volta por cima. Não podia desistir! Sim, era fácil desistir naquela altura, mas quando assumo algo é para vencer. Suspirei fundo e voltei a escrever, lutei novamente… 

O preço das palavras

Emagrecera bastante nos últimos dias, o ópio estava cada vez mais a apoderar-se do seu corpo. Alimentava-se muito mal, a sua vida era o vício e escrever aquele livro. Restava-lhe poucas forças para escrever, sentia uma fraqueza extrema. Passava das três da tarde e ainda não tinha comido nada. Na verdade, não tinha qualquer comida em casa, todo o seu dinheiro tinha sido gasto no ópio.

Naquele momento, a sua mão tremia descontroladamente, era-lhe difícil escrever, mas não vacilou e continuo para a página seguinte. O seu bloqueio era, definitivamente , algo do passado. O esforço que fazia para continuar era quase sobre-humano e demonstrava uma força espantosa. Foi assim que pegou na restante coragem que tinha para escrever o último paragrafo, a última frase e, finalmente, a última palavra.

Conseguira terminar o livro! Numa espécie de alucinação deixou cair uma pequena lágrima que correu por toda a face. Finalmente, tinha conquistado o seu obstáculo. Poucos momentos depois, sentiu uma forte dormência Lutou estoicamente, mas caiu inanimado no escritório. Já não sentiu a dor do choque…

Só na manhã seguinte o seu corpo foi descoberto. A sua editora preocupada por ele não lhe atender o telefone foi até ao seu apartamento. Contudo, tinha sido tarde demais , apenas encontrou um corpo sem vida. Ali perto, estava o livro terminado. A editora não conseguiu dar um pequeno sorriso quando pegou nele. “Foste até ao fim com a tua palavra”, deixou escapar, após um longo suspiro. Um mês depois o livro estava nas bancas, tornando-se um sucesso instantâneo… 

[Ficção]
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Nos meandros do vício

Deixou escapar um pequeno trago, numa sensação que tinha-lhe um prazer imenso. Não podia negar que sentia saudades de tudo daquilo. Tinha-se mantido sóbrio durante três anos, publicara um livro de sucesso, mas aos poucos tudo se começava a desmoronar . Estava bloqueado há meses e acabou por regressar ao ópio há uns dias. Tinha encontrado novamente a sua escuridão …

Esforçou-se para não desejar aquela vida de novo, mas a sua força de vontade foi demasiado ténue. Sabia que era demasiado fraco e que precisava de voltar a fumar. A sua luta contra o vício tinha terminado, decidiu que não iria fugir mais daquele desejo. Na primeira vez que voltou a ficar pedrado, usou  a pilha de papeis brancos que não tinha utilizado nos últimos meses. Primeiro escrevia coisas sem qualquer sentido. Palavras soltas, mas com o tempo foi conseguido fazer delas frases.

A sua inspiração tinha regressado com o seu vício. Em pouco tempo, encontrou o tema do seu livro. Iria escrever sobre aquela solidão e escuridão que sentia, a antítese perfeita do livro repleto de esperança que o tinha levado ao estrelato. Sabia que aquela era a sua única solução aceitar a escuridão da sua mente, não podia fingir que não era aquela pessoa. Sentia-se fraco, mas conseguia-se obrigar a continuar. Em menos do mês, o livro estava quase completo. Aquele livro tornou-se o seu tónico para fugir ao estado de depressão em que começou a sentir. Enquanto acolhia em absoluto a escuridão, só conseguia sorrir enquanto escrevia…

[Ficção]

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Perdido num bloqueio literário

“Não consigo escrever nada”, gritou desesperado sem conseguir reter as lágrimas que lhe caíram da face. Era um jovem escritor que há dois anos tinha lançado um livro com um sucesso tremendo que o tinha catapultado aos holofotes da fama. Agora, encontrava-se num enorme impasse, num bloqueio literário que o tornava incapaz de escrever três frases com sentido. A frustração estava a tornar tudo ainda mais difícil de suportar. Os dias iam passando e ele mantinha-se preso naquele labirinto sem saída. Mesmo com os telefonemas periódicos da sua dedicada editora continuava preso, sem conseguir ultrapassar aquela montanha que se tinha formado diante dele. Ela perguntava-lhe semanalmente como as coisas estavam a ir com o novo projecto. A sua resposta era sempre a mesma: “há cada vez mais progressos”. Dizia aquilo há quase um ano e, apesar, de se arrepender de lhe estar a mentir não conseguia suportar dizer-lhe a verdade. Era demasiado doloroso afirmar que não passava de um falhado. Sentia-se em baixo e absolutamente só. Não queria ver familiares ou amigos. Tinha-se isolado em sua casa, na bolha que era o seu desespero. Sem esperanças, sem expectativas …

[Ficção]

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