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Um Mar de Recordações

Um Mar de Recordações

O preço das palavras

Emagrecera bastante nos últimos dias, o ópio estava cada vez mais a apoderar-se do seu corpo. Alimentava-se muito mal, a sua vida era o vício e escrever aquele livro. Restava-lhe poucas forças para escrever, sentia uma fraqueza extrema. Passava das três da tarde e ainda não tinha comido nada. Na verdade, não tinha qualquer comida em casa, todo o seu dinheiro tinha sido gasto no ópio.

Naquele momento, a sua mão tremia descontroladamente, era-lhe difícil escrever, mas não vacilou e continuo para a página seguinte. O seu bloqueio era, definitivamente , algo do passado. O esforço que fazia para continuar era quase sobre-humano e demonstrava uma força espantosa. Foi assim que pegou na restante coragem que tinha para escrever o último paragrafo, a última frase e, finalmente, a última palavra.

Conseguira terminar o livro! Numa espécie de alucinação deixou cair uma pequena lágrima que correu por toda a face. Finalmente, tinha conquistado o seu obstáculo. Poucos momentos depois, sentiu uma forte dormência Lutou estoicamente, mas caiu inanimado no escritório. Já não sentiu a dor do choque…

Só na manhã seguinte o seu corpo foi descoberto. A sua editora preocupada por ele não lhe atender o telefone foi até ao seu apartamento. Contudo, tinha sido tarde demais , apenas encontrou um corpo sem vida. Ali perto, estava o livro terminado. A editora não conseguiu dar um pequeno sorriso quando pegou nele. “Foste até ao fim com a tua palavra”, deixou escapar, após um longo suspiro. Um mês depois o livro estava nas bancas, tornando-se um sucesso instantâneo… 

[Ficção]
Parte 1 || Parte 2 || Parte 3

Nos meandros do vício

Deixou escapar um pequeno trago, numa sensação que tinha-lhe um prazer imenso. Não podia negar que sentia saudades de tudo daquilo. Tinha-se mantido sóbrio durante três anos, publicara um livro de sucesso, mas aos poucos tudo se começava a desmoronar . Estava bloqueado há meses e acabou por regressar ao ópio há uns dias. Tinha encontrado novamente a sua escuridão …

Esforçou-se para não desejar aquela vida de novo, mas a sua força de vontade foi demasiado ténue. Sabia que era demasiado fraco e que precisava de voltar a fumar. A sua luta contra o vício tinha terminado, decidiu que não iria fugir mais daquele desejo. Na primeira vez que voltou a ficar pedrado, usou  a pilha de papeis brancos que não tinha utilizado nos últimos meses. Primeiro escrevia coisas sem qualquer sentido. Palavras soltas, mas com o tempo foi conseguido fazer delas frases.

A sua inspiração tinha regressado com o seu vício. Em pouco tempo, encontrou o tema do seu livro. Iria escrever sobre aquela solidão e escuridão que sentia, a antítese perfeita do livro repleto de esperança que o tinha levado ao estrelato. Sabia que aquela era a sua única solução aceitar a escuridão da sua mente, não podia fingir que não era aquela pessoa. Sentia-se fraco, mas conseguia-se obrigar a continuar. Em menos do mês, o livro estava quase completo. Aquele livro tornou-se o seu tónico para fugir ao estado de depressão em que começou a sentir. Enquanto acolhia em absoluto a escuridão, só conseguia sorrir enquanto escrevia…

[Ficção]

Parte 1 || Parte 2 || Parte 3

As chamas que o consomem

Um fumo negro crescia abundantemente ao longo de vários quilómetros na região do Douro, uma zona arborizada que estava agora a sofrer com os horrores de chamas intensas. Um homem com um enorme corte na cara olhava fascinado por criar todo aquele caos. Observava despreocupado para as labaredas, o seu olhar faiscava de prazer. Estava completamente vestido de negro, a cor do seu espírito.

De facto, não tinha uma verdadeira razão para ter começado aquele incêndio. Apenas tinha uma insana apetência para destruir, aquilo dava-lhe uma satisfação especial. Esta não era a sua estreia. Não era a primeira vez que ateava fogos, permanecia ali sempre a observar o seu trabalho. Formou-se nos seus lábios um sorriso demente, tinha voltado a conseguir o seu intento. Estava distraído com toda aquela desordem, aquele era o seu mundo, o mundo da devastação.

Um olhar tresloucado consumiu-o, a loucura era a sua parceira de crimes. Dizia algo imperceptível entre dentes, possuía um estranho sotaque. De um momento para o outro começou a suar abundantemente… Sem que notasse o fogo circundo-o, quando reparou já era tarde demais. Entendeu que estava preso, não tinha saída. A sua vida de loucura, ia acabar naquele dia. Deu uma longa e sinistra gargalha. Enfim ia chegar à sua verdadeira casa – o inferno.

 As chamas lavraram durante dias na região entre o Douro e o Vouga, um incêndio destruidor. Foram consumidos mais de 2400 hectares, uma triste imagem num dos mais belos locais portugueses. Entre os destroços, os bombeiros encontraram um corpo carbonizado…

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