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Um Mar de Recordações

Um Mar de Recordações

Uma viagem à chuva (Continuação)

O feixe de luz aproximou-se cada vez mais naquele caminho lamacento pela chuva que teimosamente continuava a cair. Começou a ver-se os contornos de um Land Rover vermelho a aparecer por trás daquela claridade. Fiz vários sinais para que pudesse ser ajudado a mudar o pneu. Tenho a certeza que o condutor me viu, mas não parou. Aliás, fez questão de acelerar perto de mim, lançando-me uma grande quantidade de lama em cima. Chamei todos os nomes que conhecia até conseguir ver aquela viatura. “Brilhante!”, foi a única forma de descrever tudo aquilo que me estava a acontecer naquela noite. Tinha o meu fato numa completa lastima repleto de lama e ainda nem sequer tinha começado a mudar o pneu.

A chuva começou a cair com mais violência e naquele lugar insipido todos os barulhos eram notados. De um momento para o outro, aquelas árvores começaram a colocar-me calafrios, portanto comecei a solucionar o problema o mais rápido que conseguia. Nunca tinha tido jeito para arranjar coisas, principalmente sobre pressão. Contudo, hoje não tinha opção a não ser que pretendesse passar uma noite no assento do carro… Ainda tentei ligar-te, mas o telemóvel estava sem rede. Amaldiçoava aquela falta de sorte. Apesar de toda aquela chuva e lama, o trabalho não se revelou tão difícil como estava à espera. Quando terminei estava num péssimo estado. O bonito fato que tinha escolhido para te impressionar parecia saído de um caixote do lixo.

Não sabia a razão mas sentia-me particularmente satisfeito pelo meu trabalho. Permiti-me um curto sorriso ao olhar para o Toyota Yaris à minha frente. Entretanto, a chuva começou a cair com menos força, senti isso como um sinal de que a minha sorte estava a regressar. Antes de me sentar, procurei uma capa que tinha para não sujar ainda mais o carro. Apesar de saber que ia chegar muito atrasado, desta vez não acelerei e fui a uma velocidade controlada para evitar qualquer tipo de percalço.

Quinze minutos depois estava à frente da tua casa. Atrasado, sujo e exausto. Tive um intenso arrepio que demonstrava todo o meu nervosismo. Já não nos víamos há algum tempo e queria acima de tudo que aquela noite fosse inesquecível. Subi as escadas o mais rápido que pude e toquei à campainha. Pouco tempo depois ali estavas. O teu olhar não mostrou grande admiração pelo meu estado. No entanto, eu fiquei hipnotizado pela tua beleza. O teu cabelo loiro realçava o teu tom de pele claro, enquanto os teus doces olhos contrastavam com o vestido arrojado que usavas naquela noite. Era negro e justo, o que realçava esse teu corpo fantástico. Engoli em seco, estavas perfeita. Pareceu que gostaste da minha reacção e iniciaste a conversa:

- Uma noite difícil está visto – disse-me com um tom de gozo nas palavras. Assim que parou de falar agarrou-me docemente na gravata suja e puxou-me para dentro de casa…    

   [Ficção] 

 

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Uma viagem à chuva

Chovia torrencialmente, numa típica noite de Inverno. Negra e melancólica, tudo não passava de uma escuridão brutalmente aterradora. Saí de casa e observei o temporal que não convidava a abandonar o conforto de lar. Tinha combinado sair contigo naquela manhã e não podia faltar. Tinha saudades de te ter nos meus braços, fazia tanto tempo…

Não se via ou ouvia alguém nas ruas desertas daquela pequena cidade que estava mergulhada naquele som sistemático de chuva a cair pesadamente. Estava um frio intenso, acendi um cigarro e observei demoradamente a beleza surpreendente de tudo aquilo. Gosto dos simples prazeres que a vida me possibilita, sou feliz assim.

Assim que terminei o cigarro, corri até ao carro para tentar ficar o menos molhado possível. Dou um longo suspiro assim que me sento no Toyota Yaris que tinha comprando recentemente. Adivinho que vai ser uma viagem difícil. Olho para o relógio e vejo que estou a ficar atrasado, portanto ligo o carro rapidamente e sigo viagem.

Não há outros carros na rua. Consigo ver muito pouco à minha frente, mas isso não me impede de ir depressa. Irrita-me chegar atrasado, por isso tomei um atalho para chegar mais rápido, enquanto descuidadamente avançava mais depressa. No sítio por onde estou a passar não há absolutamente nada, apenas árvores dos dois lados da estrada. Entretanto, chovia copiosamente o que dificultava escapar aos inúmeros buracos. Passei por um com demasiada velocidade e ouviu um barulho estranho.

“Merda”, praguejei prevendo o que tinha acontecido. Encostei o carro e fui ver o que passava no lado esquerdo da viatura. “Óptimo era só o que faltava”, comentei quando vi o pneu da frente em baixo. Tinha tido um furo no meio de um pinhal no meio de um forte temporal, não podia esperar por melhor sorte…

O mal já estava feito e o melhor que podia fazer era tentar remediar a situação. Não passava ninguém por ali e ia ter que solucionar o problema sozinho. Vesti o colete de sinalização e tirei o melhor que pude o pneu de reserva. Assim que consegui finalmente tirá-lo do carro, um feixe de luz intenso apareceu… 

 

[Ficção] 

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