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Um Mar de Recordações

Num passado de indefinições, um presente intermitente em que um futuro ambicioso se avizinha

Um Mar de Recordações

Recordação...

Hoje não passas de uma memória, de uma simples e bela recordação. Hoje és o passado que já foi o meu futuro. Consigo ver-te nesta espiral de recordações, neste longo mar de recordações. Sempre foste a pessoa que mais amei que mais me tocou, mas hoje choro por ti! Chove e tu não podes fazer nada. Sempre foste tão forte e agora nem consegues abrigar-te da chuva! Nunca pensei ver-te assim, caiem-me lágrimas de olhar e não poder ver-te, a partir de agora és apenas e só uma pedra. Uma pedra com escrituras… Merecias mais amor, merecias muito mais… Porquê é que teve que ser assim? Fomos separados sem desejá-lo, numa volúpia arrasadora e letal. Mas hoje o dia ainda é nosso, por hoje seremos mais uma vez só nós dois, amanhã apenas restarei eu, sozinho, perdido num mundo que já não conheço e que dizia a sorrir que era nosso.

[Ficção]

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Toque do destino

O tempo arrefece rapidamente. O dia está estupidamente cinzento, a chuva aproxima-se. É melhor despachar-me, penso instantaneamente. Não posso chegar atrasado. Não podemos fugir do destino. A ideia provoca-me um sorriso irónico, seguida de um longo suspiro. Não há mesmo forma de evitá-lo... Nunca acreditei nestas tolices, mas agora tenho que me render às evidências. Curioso, como as coisas mudam por um mero acontecimento.

No início do dia, percorria caminhos ríspidos repletos de pessoas ruidosas e apressadas. Fazia-o despreocupadamente. Ninguém dava conta da minha presença, não passava de um fantasma nas ruas. Pensava que tudo isso iria acabar. Esse pensamento era a única razão que me fazia continuar a mover. A morte. Dolorosa, intensa e inevitável. Reconheço que pensava que ia acabar com tudo de uma vez por todas, sem qualquer tipo de dramatismo. Um simples tiro e tudo isto acabava.

A arma estava no bolso do casaco pronta para ser disparada. Dirigia-me a um campo próximo da minha casa. Nunca fui de grandes planos. Não estava à procura de uma morte majestosa , não! Queria apenas algo rápido e derradeiro. Um final seco, numa vida desapontante. A verdade é que deixei-me consumir pelo meu próprio ego e perdi tudo o que tinha. Fiquei sem trabalho, dinheiro e família e acabei sozinho nas terríveis malhas da solidão...

Admito que nestes momentos sombrios pensei que nada mais havia para lutar. Perdi o medo das consequências, talvez tenha sido presunçoso da minha parte… Mas nada me prendia aqui, resta-me acabar com tudo. Quando cheguei finalmente ao local, apontei a arma à minha boca. Queria terminar com tudo o mais rápido possível. A pistola estava brilhante, novinha em folha. Tinha sido comprada única e exclusivamente para aquele objectivo. Fechei os olhos.

Passaram várias fases da minha vida pela minha cabeça, enquanto estive com os olhos fechados. Como se tivesse a ver um álbum de fotografias que esperava pela última imagem – a minha morte. Comecei a puxar o gatilho da arma. Enfim, a liberdade. Hoje. AGORA, gritei. Triiiim . O som do telemóvel fez-me perder a força da mão e larguei a arma desengonçadamente. A pistola fica esquecida no meio da relva esverdeada. Tinha recebido uma mensagem, um toque do destino. Comecei a lê-la e deixei-me cair de joelhos com lágrimas a correrem-me descontroladamente pela face. “Tenho saudades tuas, pai. Onde estás?”, podia ler-se na mensagem.

[Ficção]

 

 
 

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A primeira morte do ‘Justiceiro Absoluto’ [One-shot*]

Lisboa vivia mergulhada numa tensão imensa, o medo dominava as ruas. Todos temiam uma ameaça vinda das sombras. Há poucas horas, todos os canais noticiosos informavam que tinham sido encontrados uma dezena de corpos sem vida. A autoria deste crime tinha sido de uma espécie de justiceiro que fazia justiça pelas próprias mãos. A identidade desse ‘Justiceiro Absoluto’ permanecia um mistério para a equipa da polícia liderada por Gonçalo Tavares. A capital portuguesa sangrava dolorosamente, mas nem sempre tudo tinha sido assim…

Toda aquela loucura tinha começado há umas semanas atrás, um poderoso gestor dava passos lentos, não tinha pressa para chegar a uma casa vazia. Apesar de ser alto, Bruno Correia possuía um porte volumoso com vários quilos a mais. Na casa dos 30, era alguém com ambições políticas que tinha um grande vício: dinheiro fácil. Recentemente, tinha entrado num esquema fraudulento que lhe valera vários milhares de euros para a sua conta no estrangeiro. Acabou por escapar a um julgamento devido às suas influências com o poder. A vida corria bem aquele homem abastado. Largou um sorriso arrogante ao pensar no sucesso que tinha tido nos últimos tempos.

Poucos metros depois, chegou à sua luxuosa moradia. A sua casa destacava-se das demais naquela rua. Bruno Correia estava um pouco apreensivo. Não sabia a razão, mas pressentia algo. A sua garganta estava estranhamente seca. Fez um curto esgar, num claro desejo de esquecer aquela tola ideia. Contudo, quando entrou na sua espaçosa sala reparou que a sua casa tinha sido remexida. Engoliu em seco. Avançou com cuidado, tentando não fazer barulho. O seu objectivo passava por chegar à arma que se encontrava guardada no seu escritório. Queria preservar acima de tudo a sua integridade, não sabia se alguém ainda estava ali…

Tentou mover o melhor que podia o seu corpo pesado, uma gota de suor caiu freneticamente pela sua face bolachuda. As suas pernas tremiam abundantemente, não era adepto deste tipo de momentos de ansiedade extrema. O seu coração estava a bater descontroladamente. Estava completamente amedrontado. Atrás de si ouviu um pequeno barulho, ainda se conseguiu virar para ver alguém a correr uma velocidade espantosa. Apenas conseguiu ver um homem vestido de negro com um mascara branca a tapar a cara. Na sua mão uma faca afiada aproximou-se perigosamente do seu pescoço. Depois disso, apenas escuridão…  

*One-shot inspirada no meu livro ‘A Analogia da Morte’

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Desenho feito pela Ana

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Um luto devastador

Passou um mês depois daquela tempestade devastadora, mas ainda permaneciam alguns destroços do dia sinistro. A vila tinha perdido a sua alegria, outrora colorida e jovial, agora eram os tons negros que imperavam. Parecia um local completamente transfigurado. A população ainda estava a tentar absorver a perda de Bruno Pires. O jovem desaparecera sem deixar rasto naquele temporal destruidor. Naquela pequena vila piscatória, a saudade ainda era extremamente dolorosa.

Numa tosca casa junto ao mar, o silêncio reinava. No chão sentado contra a parede um embriagado José Brandão permanecia miseravelmente. Desde da tempestade que não tinha voltado ao mar. Estava com um aspecto deplorável, umas longas olheiras mostravam o pouco descanso que tinha tido nos últimos tempos, enquanto uma barba por fazer dava ênfase ao desnorte daquele homem. O seu olhar não tinha qualquer tipo de vida, era uma sombra do corajoso e aventureiro capitão. Lá fora começou a chover com uma enorme intensidade, cada gota parecia uma faca no seu coração ferido, numa dor ardente e contínua.

Com o desenrolar dos minutos aquele som destrutivo fê-lo sentir algo diferente, desejou pela primeira vez enfrentar os fantasmas do passado.  Não saia de casa há algum tempo, isolara-se naquela depressão destruidora. Culpabilizava-se pela morte do seu companheiro.  Grunhiu ao tentar mexer as suas pernas dormentes, os primeiros passos foram extenuantes. Parecia estar a tentar redescobrir a sua força. Saiu de casa de uma forma desarticulada. Sabia onde tinha de ir, precisava de enfrentar o seu medo.

Quando Brandão percorreu o denso areal, ficou parado em frente do mar agitado. Ao fundo observava a zona de rebentação. As lágrimas caíam-lhe fervorosamente. Continuava revoltado. Gritou descontroladamente, parecia um homem possuído.  Permaneceu num longo silêncio depois daquela descarga emocional. Apenas desejava que o tempo voltasse atrás. Ficou assim durante horas, Só abandonou aquele local quando a última gota caiu do céu, aquela era a sua homenagem.  Antes de ir embora largou um “Desculpa ter-te falhado companheiro” quase imperceptível…

 Imagem retirada de: http://oglobo.globo.com/

Parte 1 | Parte 2

 

 

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Quando a esperança acaba…

Despertou repentinamente quando a sua cara bateu na água, a respiração ofegante pelo susto. Permaneceu ali preso a um destino fatal. O seu corpo escorregou vagarosamente pela banheira, estava sem força para reagir. Tinha chegado ao seu limite físico, a água já lhe chegava perigosamente ao queixo. “Socorro”, gemeu demasiado baixo. Aquele ténue pedido não lhe valia de nada, ninguém estava a em casa para o acudir. A esperança estava a eclipsar-se a uma velocidade alucinante. Entendeu que aqueles eram os seus últimos momentos de vida, a sua morte aproximava-se rapidamente. Naquele momento de fraqueza ainda deu um fraco suspiro. O seu destino era inevitável, o seu corpo escorregou mais um pouco, estava a centímetros do nariz. Perdeu novamente os sentidos. A água apoderou-se do seu corpo, consumindo-o aos poucos. A sua vida estava no seu fim…

“Argh!!!!”, gritou desalmadamente. Estava completamente soado na sua cama e com o coração a bater acelerado. Rapidamante, a sua mulher acordou com a gritaria, abraçou-o suavemente para atenuar aquele nervosismo. “É só um pesadelo, está tudo bem meu amor”, consolou-o. Ainda nervoso, aquele sexagenário sentiu-se mais vivo do que nunca. 

Parte 1 || Parte 2

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Submerso em águas perigosas

Não queria acreditar que a sua vida acabasse assim, daquela forma tão inglória. Um sorriso ironico surgiu na cara daquele homem de idade avançada. Naquele momento estava preso na sua casa de banho. Encontrava-se mergulhado em água fria. Há alguns minutos tinha escorregado e batido com a cabeça na banheira. Não conseguia mexer-se para sair daquele local, apesar dos seus constantes esforços. Aos poucos, sentia que o seu corpo ia escorregando perigosamente.

Esforçava-se para se mexer mas o seu corpo já não era aquilo que era. Com mais de 60 anos, já lhe custava movimentar-se. Aquele forte embate tinha-o deixado muito atordoado, os seus músculos teimavam em não responder. Enquanto isso tremia ao sentir o frio, a sensação era cada vez mais desagradável. Tentava sair de todas as maneiras que conseguia. Naquele momento, tentava usar a perna esquerda para tirar a rolha, mas as suas tentativas revelavam-se constantemente falhadas. Lutava para se salvar, mas só conseguia aumentar a sua frustração. Aos poucos a sua força começava a perder-se.

O medo aterroziava-o cada vez mais, sabia que não havia forma de escapar à morte. “Que patético!”, pensou, num momento em que perdera toda a esperança de se salvar. Já estava assim há demasiado tempo assim, não ia conseguir resistir muito mais. As forças estavam cada vez mais a afastar-se, lutava para se manter acordado. Aquela era uma batalha inglória. Fechou os olhos e perdeu a concisciência…  

[Continua…]

 

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