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Um Mar de Recordações

Um Mar de Recordações

Enfrentar os fantasmas do passado

Conhecia aquele ar arrogante em qualquer lugar, não tinha mudado absolutamente nada. Continuava com aquela exagerada e exuberante confiança tão característica. Tinha namorado com ele durante o último ano de secundário, mas ele simplesmente sumiu da sua vida quando entraram em universidades diferentes. Nunca lhe deu uma justificação, mas revê-lo ainda fazia o seu coração disparar.

Não imaginava que ele aceitasse ir a uma festa daquelas, não estava preparada para ver aquele antigo amor. A principio ele não a viu, mas assim que reparou na sua presença o seu olhar nunca mais a deixou. A sua expressão divertida fechou instantaneamente e dirigiu-se para onde ela estava num passo apressado. Não quis acreditar quando o viu aproximar, não soube como reagir. Congelou completamente…

- Carrie – saudou cordialmente , mas sem esconder o tom melancólico. De perto, havia poucas mudanças nos últimos anos, era assustador como ainda se lembrava de todos os seus traços.

- John - cumprimentou mecanicamente, não sabia o que dizer. Sentia-se uma enorme tensão entre os dois, as cicatrizes do passado permaneciam bem presentes. Era estranho estarem frente a frente depois de tantos anos. Ele deu um sorriso nervoso como que a pedir ajuda para a conversa prosseguir.

- Desculpa ter desaparecido sem te dar justificações – reconheceu por fim, estava a fazer um enorme esforço de quebrar o gelo. Um longo silêncio apoderou-se daquele par, nenhuma palavra surgia. Apenas se olharam mutuamente sem saber o que dizer um ao outro. O ambiente era constrangedor, a sala estava cheia mas pareciam estar sozinhos.

- Terminar era o melhor para os dois, mesmo que não quiséssemos admitir. Precisavas disso para dar o passo em frente – concedeu entre algumas hesitações. Viu que ele estava a sentir aquilo que estava a dizer. Pensou nos fantasmas que a enfrentaram no passado e como os conseguiu ultrapassar. O fim daquela relação coincidiu com o seu amadurecimento, por mais que não quisesse admitir ele tinha razão. A ideia fê-la dar o mais belo dos sorrisos…  

Parte 1 || Parte 2

Reviver o passado

Avançava num passo apressado pelas ruas da capital, numa altura em que os pés começavam a doer pelos saltos altos que usava. Não se deixava de questionar a razão para ir aquele local… Há semanas atrás tinha-se rido do convite para a reunião da sua antiga turma do secundário. Contudo, hoje estava a ir para aquele local. Era irónica aquela decisão até porque nunca fora uma rapariga popular, na verdade era a típica desajeitada e tímida que ninguém tomava atenção. Mas tinham-se passado dez anos e muita coisa tinha mudado. Amadureceu. Concluiu o seu curso e garantiu um bom emprego na sua área, mas ainda assim sentia a necessidade de aparecer…

Sempre achara que aqueles encontros eram para um bando de cretinos passarem a noite a afirmarem o quão bem estavam na vida quando na verdade não passavam de uns infelizes. Não tinha a personalidade para lidar com aquele tipo de joguinhos, o que tornava a sua decisão de ir mais estranha. Havia uma atracão especial para estar naquele local, não sabia explicar aquele desejo inesperado. No entanto, tinha a certeza que não podia perder aquele momento. Ainda assim amaldiçoava-se por sair à rua naquela fria noite de Inverno.

Mesmo com pouca vontade não se tinha descuidado com a sua imagem. Vinha vestida de uma forma esplendorosa, arrebatadora para dizer a verdade. Um casaco de pele escondia um vestido preto justo que destacava as suas curvas perfeitas. Uma visão diferente da jovem quase invisível no secundário. Agora era uma pessoa completamente diferente e não queria deixar de mostrar que tinha-se tornado uma bela e sofisticada mulher. Assim que chegou ao local, não pode deixar de reparar que vários olhares se cravaram nela. Sentia-se satisfeita por aquele tipo de atenção. Nasceu um pequeno sorriso presunçoso que se esfumou assim que o viu… 

Parte 1 || Parte 2

Imagem espontânea (7)

Este mês o “Imagem espontânea”, rubrica no qual são colocadas várias fotografias da minha autoria, chega à sua sétima edição. Num número bastante especial (o meu preferido), trago-vos mais uma fotografia tirada no Funchal (Madeira) durante as minhas férias. O que esta foto pretende transmitir é um espaço de trabalho, numa clara simbologia ao momento que atravesso. Nos últimos tempos tem sido de intenso trabalho para concluir todos os trabalhos para o mestrado, portanto muito tempo é passado numa secretária a ler e a escrever. No fim, tudo valerá a pena! Espero que gostem da foto, bem como da respectiva ilustração e que deixem as vossas opiniões!

 

 

 

“Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida.” Confúcio (filósofo chinês)

Recordar é viver

Um aeroporto é um mundo, disso não tinha quaisquer dúvidas. A sua vida era passada em diversos espaços aéreos , cada um parecia ter uma história particular. Aquele era apenas só mais um. Era um homem de negócios extremamente mediático, tinha enfrentado muitos dissabores ao longo da vida e achava-se preparado para tudo, mas o que ia sentir naquele dia estava longe de estar nos seus planos…

Estava habituado a todas as despedidas e burocracias normais de cada partida, era um costume a que se tinha habituado. Aquela era a sua vida. Naquele dia encontrava-se mais nervoso que o costume, apesar de já ter viajado centenas de vezes num avião nunca se conseguia adaptar aquela sensação. Era irónica a situação, pois era um homem que não gostava de mostrar fraqueza a ninguém, mesmo nos piores momentos da vida.

Percorrria descontraidamente a sala em que estava instalado, tentando colocar aqueles pensamentos para trás das costas. Para passar o tempo, percorria as caras que iam passando apressadas para cada voo. Fazia aquilo sem especial interessem, fixava aquelas caras durante alguns segundos, retidas no seu pensamento, acabando por as deixar esvoaçar para os seus destinos programados.

Inesperadamente, o seu olhar reteve-se numa face. Não conseguiu conter o seu olhar de desespero. Aquela cara era demasiado semelhante, trazia-lhe demasiadas recordações… Tudo deixou de ter importância aquele frio homem de negócios paralisou ao percorrer o corpo daquela mulher. Era tão familiar, mas só isso… familiar. Apenas e só familiar…

- Maria, doce Maria – balbuciou entre dentes, enquanto uma lágrima percorria a sua face. Memórias antigas trespassaram as barreiras enfraquecidas do seu ser. Alturas em que sorria para a sua falecida mulher. Recordações que todos os dias tentava esquecer estavam a inundar a sua alma.

Aquele era um momento de fraqueza total, deixou-se estar ali, desamparado, sem hipóteses de defesa, enquanto aquela mulher passava por ele sem sequer reparar nele. Por momentos sentiu tudo novamente, todos aqueles bons momentos, mas nada foi do que um intenso mar de recordações… Aquele momento, aquele olhar, aquele sentimento, foi retomar por momentos a um passado, a um livro fechado que jamais poderá voltar a viver. Ainda assim voltar a recordar-se disso fez-lhe sorrir…

[Ficção]