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Um Mar de Recordações

Um Mar de Recordações

Um abraço mágico

Dirige-se para sua casa cabisbaixo, o dia tinha-lhe corrido francamente mal. Voltara a falhar, não queria acreditar naquilo que lhe estava a acontecer. A entrevista de trabalho que tinha feito não tinha corrido como pretendia, sabia que não iria ser chamado. Completava quarenta anos daqui a umas semanas e as oportunidades eram cada vez menos, não lhe era permitido continuar a desperdiçar oportunidades. Já não tinha as ilusões da juventude, sabia que aquelas dificuldades eram problemáticas. Estava destroçado por não conseguir ajudar em casa, passava os dias frustrado numa espiral de derrota sem conseguir dar um passo em frente. Ia caminhando sem erguer a cabeça, estava com pena de si próprio. Mesmo tendo uma carreira de prestigio e ser um trabalhador competente e cumpridor, a crise fez com que vivesse um autêntico pesadelo. A sua confiança nunca mais foi a mesma, simplesmente despareceu. Sentia-se perdido, sem rumo. Entrou em casa completamente derrotado, a sua mulher veio rapidamente ter com ele ansiosa por novidades. Não precisou de dizer absolutamente nada, ela abraçou-o instintivamente. Aquele gesto fez com que tudo ficasse melhor. Ela era a sua rocha, possuía a capacidade de tornar todos os seus dias melhores, de afasta-lo daquele abismo negro. Aquela era a força do verdadeiro amor!

[Ficção]

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A dor da separação

Passados três meses, tinha recebido a carta que lhe partiu o coração. Em cima da secretária, estava o pedido de divorcio. Um casamento de uma década desfeito através de umas simples e frias palavras. Não recebera aquela notícia com surpresa, já a esperava há algum tempo, mas perceber que não havia saída daquele pesadelo era uma realidade dura de suportar. Aceitar aquela separação era reconhecer que os últimos dez anos da sua vida não passaram de um fracasso. Desde cedo que tinha tentado agradar aquela mulher de todas as formas possíveis, dando-lhe todo o amor que tinha e concretizando todos os seus caprichos. Tinha vivido para aquele amor. Dedicou-se intensamente aquela relação, mas o único agradecimento que tinha recebido era vários gestos de ingratidão culminados com aquela carta. “O que tinha falhado?”, não deixou de pensar enquanto lia pela centésima vez aquele papel. Acreditava piamente naquele amor e aquele acto tinha sido um golpe demasiado duro para ultrapassar. Não podia acreditar o quão iludido tinha estado durante tanto tempo. Não conseguiu conter que uma lágrima caísse na sua pele já com algumas rugas, estava demasiado fraco para conseguir manter-se afastado daquela tristeza e desilusão. Agora, para que tudo aquilo ficasse selado, apenas precisavam de uma assinatura dele, um pedido para assumir que todos os seus sonhos tinham sido abatidos com aquela separação. Levantou-se da cadeira e foi encher um copo de whisky. Deu um longo trago repentinamente. “Que assim seja!”, afirmou numa voz intensa de desespero, enquanto começava a rubricar aquele papel. O seu casamento tinha terminado oficialmente naquele momento, tal como a sua vontade de sonhar…

[Ficção] 

Parte 1 || Parte 2

Um encontro surpreendente

Não podia deixar de se emocionar ao ler aquilo. O voo tinha sido atrasado por mais uma hora, o que queria dizer que ainda tinha hipóteses de a encontrar. Voltou a correr deixando à sua passagem o piso molhado pela chuva que tinha apanhado pelo caminho. Ignorou o olhar reprovador de uma funcionária que estava a limpar uma zona ali perto. Não queria saber de nada, apenas queria agarrar aquela nova oportunidade que o destino lhe tinha concedido.
Percorreu rapidamente as pequenas lojas que havia no aeroporto, mas não havia sinais dela. Girou sobre si, não conseguido esconder a apreensão e frustração de não estar a conseguir encontrá-la. Parou repentinamente e permaneceu ali de olhos fechados. O desespero tinha-o tomado. Segundos após ter parado, ouviu um riso que lhe era conhecido e que lhe fez abrir instantemente os olhos.
"Gi , durante quanto tempo vais continuar a andar à roda?”, ouviu atrás de si. Aquele nome e aquela voz. Reconhecia-o em qualquer parte do mundo. Virou-se e ali estava ela com aquele sorriso que o tinha enfeitiçado. Como sempre, estava lindíssima. A pele bronzeada contrastava com os olhos claros e o cabelo loiro. Usava um vestido branco que ele lhe tinha oferecido no mais recente aniversário de namoro. O seu coração bateu mais forte, ela era um encanto para os seus olhos.
- Estive a tentar encontrar-te por todo o lado, temi que já não o conseguisse – disse-lhe, sem esconder o nervosismo. Estava a sentir aquele momento.
- Não contava ver-te, pensei que nos tivéssemos despedido ontem. Então a que devemos este belo canto de cisne? – questionou com um tom de ironia. No dia anterior tinham estado juntos durante umas horas escaldantes. Aquelas provocações não passavam de uma máscara, por dentro sentia-se pessimamente por ter de ir abandoná-lo. Amava-o verdadeiramente.
- Precisava falar contigo... Tinha que estar contigo mais uma vez – gaguejou a responder. Ontem todas as tentativas tinham-se revelado ineficazes, mas sabia que hoje ia ser diferente. Não tinha alternativa, aquela era a sua última oportunidade.
- Infelizmente não podemos ter a conversa de ontem – segredou-lhe ao ouvido, provocando-o mais uma vez. Ela adorava tirar-lhe do sério, principalmente nos momentos de maior tensão. – Ontem quando te despediste não disseste que me amavas, vieste cá dizê-lo foi?
- Amar-te igual a ontem? Não... Hoje amo-te ainda mais, não consigo parar de fazê-lo. A cada dia cresce mais. Portanto, não poder ver-te é uma tortura que não quero suportar. – após ter dito isso entregou-lhe um pequeno envelope com um sorriso nervoso.
Com o coração acelerado e repleto de curiosidade ela abriu a carta rapidamente. Dentro estava uma passagem para o local para onde ela ia, mas para o dia seguinte. Era um bilhete para ele. Ao ver aquilo, começou automaticamente a chorar. Contudo, aquele não era o único conteúdo do envelope. No interior estava um desenho de um anel.
- Mas que raio é isto Gi ? - perguntou-lhe confusa. Precisou de baixar o olhar para o ver. Ele estava de joelhos junto dela com um anel na mão.
- Por favor, casa comigo – pediu-lhe com a voz a tremer.

    

 [Ficção]

Parte 1 || Parte 2 || Parte 3

Perdido no aeroporto

Impossível! Não ia deixar a pessoa mais especial da sua vida partir daquela maneira. Iria lutar até ao fim, até que as suas forças acabassem. Não ia desistir tão facilmente, desta vez não. Não podia deixar sentir alguma responsabilidade por aquilo que estava a acontecer, tinha que a ver por uma última vez!
A chuva caia descontroladamente, a cada minuto a força parecia aumentar. Não se importou com isso, iniciou novamente a marcha. Desesperadamente, começou a correr o mais rápido que podia naquelas travessas semelhantes. Precisava de encontrar um táxi em algum lugar, mas as ruas estavam vazias. Só quando chegou a uma artéria principal é que conseguiu encontrar um que o pudesse levar até ao aeroporto. Aquele carro avançou pela capital numa corrida pelo amor verdadeiro. Desta vez não ia recuar. Ia dar o passo decisivo que não tinha tido coragem de dar durante meses. Sentia-se inútil por não ter sido capaz de lhe dizer tudo o que sentia, as palavras tinham ficado caprichosamente presas na garganta. Arrependia-se diariamente por aquela cobardia.
Repentinamente, acordou dos seus pensamentos quando sentiu o carro abrandar, ao olhar para a frente entrou em pânico. Não podia acreditar no azar que estava a ter! Á sua frente encontrava-se uma longa fila de carros que tornava irreal a ideia de poder chegar a tempo. Assim, não teve escolha a não ser pagar ao taxista e ir a correr até ao aeroporto. A hora estava a ficar perigosamente apertada, receava chegar demasiado tarde. O seu coração tremia quando via algum avião descolar. Podia ser ela não conseguia deixar de pensar. Completamente molhado, chegou ofegante à porta do aeroporto e dirigiu-se rapidamente ao quadro de voos. Os seus olhos percorreram rapidamente a informação e quando terminou uma lágrima caiu pela sua face.

[Ficção]

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Uma viagem à chuva (Continuação)

O feixe de luz aproximou-se cada vez mais naquele caminho lamacento pela chuva que teimosamente continuava a cair. Começou a ver-se os contornos de um Land Rover vermelho a aparecer por trás daquela claridade. Fiz vários sinais para que pudesse ser ajudado a mudar o pneu. Tenho a certeza que o condutor me viu, mas não parou. Aliás, fez questão de acelerar perto de mim, lançando-me uma grande quantidade de lama em cima. Chamei todos os nomes que conhecia até conseguir ver aquela viatura. “Brilhante!”, foi a única forma de descrever tudo aquilo que me estava a acontecer naquela noite. Tinha o meu fato numa completa lastima repleto de lama e ainda nem sequer tinha começado a mudar o pneu.

A chuva começou a cair com mais violência e naquele lugar insipido todos os barulhos eram notados. De um momento para o outro, aquelas árvores começaram a colocar-me calafrios, portanto comecei a solucionar o problema o mais rápido que conseguia. Nunca tinha tido jeito para arranjar coisas, principalmente sobre pressão. Contudo, hoje não tinha opção a não ser que pretendesse passar uma noite no assento do carro… Ainda tentei ligar-te, mas o telemóvel estava sem rede. Amaldiçoava aquela falta de sorte. Apesar de toda aquela chuva e lama, o trabalho não se revelou tão difícil como estava à espera. Quando terminei estava num péssimo estado. O bonito fato que tinha escolhido para te impressionar parecia saído de um caixote do lixo.

Não sabia a razão mas sentia-me particularmente satisfeito pelo meu trabalho. Permiti-me um curto sorriso ao olhar para o Toyota Yaris à minha frente. Entretanto, a chuva começou a cair com menos força, senti isso como um sinal de que a minha sorte estava a regressar. Antes de me sentar, procurei uma capa que tinha para não sujar ainda mais o carro. Apesar de saber que ia chegar muito atrasado, desta vez não acelerei e fui a uma velocidade controlada para evitar qualquer tipo de percalço.

Quinze minutos depois estava à frente da tua casa. Atrasado, sujo e exausto. Tive um intenso arrepio que demonstrava todo o meu nervosismo. Já não nos víamos há algum tempo e queria acima de tudo que aquela noite fosse inesquecível. Subi as escadas o mais rápido que pude e toquei à campainha. Pouco tempo depois ali estavas. O teu olhar não mostrou grande admiração pelo meu estado. No entanto, eu fiquei hipnotizado pela tua beleza. O teu cabelo loiro realçava o teu tom de pele claro, enquanto os teus doces olhos contrastavam com o vestido arrojado que usavas naquela noite. Era negro e justo, o que realçava esse teu corpo fantástico. Engoli em seco, estavas perfeita. Pareceu que gostaste da minha reacção e iniciaste a conversa:

- Uma noite difícil está visto – disse-me com um tom de gozo nas palavras. Assim que parou de falar agarrou-me docemente na gravata suja e puxou-me para dentro de casa…    

   [Ficção] 

 

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